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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Frei Felipinho: O que Deus uniu, o homem não separe

8º domingo do Tempo Comum - Quando tudo falhar, restará Deus


Is 49, 14-15
Sl 61 (62)
1Cor 4, 1-5
Mt 6, 24-34

A busca fundamental

24 Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.»

25 «Por isso é que eu lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa? 26 Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será que vocês não valem mais do que os pássaros? 27 Quem de vocês pode crescer um só centímetro, à custa de se preocupar com isso? 28 E por que vocês ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29 Eu, porém, lhes digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. 30 Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, muito mais ele fará por vocês, gente de pouca fé!

31 Portanto, não fiquem preocupados, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? 32 Os pagãos é que ficam procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. 33 Pelo contrário, em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas essas coisas. 34 Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade.»
* 25-34: A aquisição de bens necessários para viver se torna ansiedade contínua e pesada, se não for precedida pela busca da justiça do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade. O necessário para a vida virá junto com essa justiça, como fruto natural de árvore boa.
Bíblia Sagrada - Edição Pastoral


Quando tudo falhar, restará Deus – Pe. João Batista Libânio, sj

Essa é uma das páginas mais belas do evangelho, mas não podemos entendê-la ao pé da letra, pois assim viveríamos como hippies: sem trabalhar, sem tomar banho, sem trocar roupa, passando todo o dia apenas curtindo. Será que Jesus foi apenas um grande hippie? Sobre isso há até um filme em que Jesus aparece meio hipposo (*). Não é por aí que vai a reflexão de Jesus. Temos que considerar e refletir em níveis diferentes. Uma boa reflexão nunca fica apenas em um nível, e começo por lembrar que nesse trecho há diferentes situações que o evangelista costurou.

Há um primeiro nível normal, cotidiano, e é claro que precisamos nos preocupar. Imaginem se um pai não vai se preocupar com seu filho? Os filhos mergulham na internet, bebendo toda a porcariada ali lançada, enquanto seus pais dormem. É claro que eles devem se preocupar, abrir os olhos grandes, cuidar, zelar noite e dia, se possível. Não é disso que o Senhor fala. É claro que precisamos pensar no que vamos comer amanhã, na inflação, na falta de alimentos, na alta da gasolina. Tudo isso nos preocupa e faz parte de nosso cotidiano. Jesus não quer que nenhum de nós seja um presentista irresponsável. Não vai por aí.

O evangelho começa dizendo que não podemos servir a dois senhores, e Deus é a última referência da minha vida, além de minha mãe, de meu pai, de meus irmãos, das pessoas que eu amo. Há uma instância maior que restará quando todas as outras desaparecerem, quando eu me sentir totalmente sozinho.

Esta última instância só pode ser Deus. Surge então a pergunta: a que senhor nós servimos? Quando sentirmos que nenhum amor – nem de pai, irmão, mãe, filho, esposo – preenche nosso imenso vazio, o imenso abismo do coração humano, só restará Deus. Nenhuma coisa, nenhuma festa, nenhum dinheiro será essa última referência que ilumina e dá sentido a cada uma das realidades.

Esse evangelho não é para cada dia, mas sim para alguns momentos da vida. Foi na cruz que Jesus o experimentou. Quando sentia câimbras, dores, quando se esvaía em sangue, quando não podia fazer mais nada e só lhe restava confiar –“Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!”. A confiança é o nosso último solo.

Todas as outras camadas geológicas são importantes, mas haverá um dia em que todas elas falharão, e, sem Deus, iremos para o abismo do nada. Todos nós, num dia ou noutro, numa hora ou noutra, viveremos uma experiência mais profunda, quando parecerá que o fundamento em que estamos assentados cede; quando o fundamento espiritual, as nossas seguranças, os nossos amores, aquilo que há de mais profundo em nós, parece que ficam abalados; quando a confiança, em quem quer que seja, rui, cai pelo engano, pela traição, pelo engodo, pela mentira. De repente, acordamos sozinhos, na solidão mais solitária. Nesse momento, quem irá nos sustentar? Aí é que poderemos nos lembrar de que o Senhor Deus é o último fundamento. É para essa hora que Ele nos diz que devemos ter a confiança dos pássaros, dos lírios do campo. Aí Ele nos vestirá com a beleza de sua graça, irá nos soprar com o hálito de seu amor, irá voar como a grande águia ensinando seus filhotes, guiando-os aos mais altos alcantilados até atingirem o infinito do céu. Deus é essa águia, é essa mãe da qual falava o profeta.

Ele poderia ter tomado o amor de namorados, de noivos, de esposos, mas não. Deus escolheu o amor de mãe, não porque ela gera e engendra o seu filho – isso faz qualquer animal. Mãe é, fundamentalmente, cuidado, e não me refiro necessariamente à mãe biológica. A verdadeira mãe nunca rejeita o seu filho, e o que torna alguém mãe é o cuidado, a ternura, o afeto, a relação pessoal, de conhecimento. Não é uma relação profissional, mas que tem nome, sobrenome, genoma, que está carregada de história e de amor. Se nós, seres humanos, somos capazes disso, Deus é muito mais. De vez em quando, ainda encontramos católicos que acham que Deus castiga e que nos espera com o inferno. Quando é que vamos conseguir tirar essa visão horrorosa de nossas cabeças? Se uma mãe pode esquecer-se de seu filho, Ele não esquece, nunca jogará uma criança pela janela.

Existe uma ética, que para mim é fundamental, que é a do cuidado. Está sendo elaborada na Europa e também no Brasil. O cuidado começa em captar o outro na sua alteridade, na sua diferença. Saber quem precisa de um olhar, de um aconchego, de um abraço. As pessoas que não foram cuidadas irão amargar pelo resto de suas vidas, serão azedas. Não são más não, são espinhentas, porque não foram cuidadas, por isso os espinhos crescem. Quanto menos forem cuidadas, mais espinhosas serão. Quanto mais zeladas, amadas, cobertas pelos olhares que as cercam, mais serão assim para os outros.

É esta experiência que Jesus quer nos passar hoje: precisamos saber que Deus cuida de nós! Quando tudo e todos falharem, quando o horizonte se agitar, quando parecer que o oxigênio nos falta, saibamos que Deus é oxigênio. Quando acontecer um blackout geral e todo o nosso mundo ficar escuro, saibamos que Deus é luz. Quando faltar vestido, saibamos que Deus veste. Quando faltar alimento, saibamos que Deus alimenta. Claro que não é o alimento físico, mas interior: o alimento da alma, da cultura. Sobretudo agora, quando a cultura parece nos oferecer apenas bagaços, sem nenhum sumo gostoso e doce. É nesse momento que esse evangelho faz sentido para nós. Deus é o último fundamento de todas as coisas. Amém. (25.05.08/8º. domingo comum)

(*) referência ao filme “Jesus Cristo Superstar” de Andrew Lloyd Webber, lançado em 1973.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 9

CONFIRA A REFLEXÃO DE FREI GUSTAVO MEDELLA PARA ESTE 8º DOMINGO DO TEMPO COMUM:

Em Deus, justiça é misericórdia


Cidade do Vaticano – O Papa celebrou a Missa na capela da Casa Santa Marta na sexta-feira (24/02). Na homilia, Francisco advertiu para a hipocrisia e para o engano provocado por uma fé reduzida a uma “lógica casuística”.

“É lícito para um marido repudiar a própria mulher?”. Esta é a pergunta contida no Evangelho de Marcos que os doutores da Lei fazem a Jesus durante sua pregação na Judeia. “E o fazem para colocar Cristo à prova mais uma vez”, observou o Papa, que se inspirou na resposta de Jesus para explicar o que mais conta na fé: “Jesus não responde se é lícito ou não; não entra na lógica casuística deles. Porque eles pensavam na fé somente em termos de ‘pode’ ou ‘não pode’, até onde se pode, até onde não se pode. É a lógica da casuística: Jesus não entra nisso. E faz uma pergunta: ‘Mas o que Moisés vos ordenou? O que está na vossa lei?’. E eles explicam a permissão que Moisés deu de repudiar a mulher, e são eles a cair na própria armadilha. Porque Jesus os qualifica como ‘duros de coração’: ‘Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento’, e diz a verdade. Sem casuística. Sem permissões. A verdade.”
“Jesus sempre diz a verdade”, “explica as coisas como foram criadas”, destaca ainda o Papa, a verdade das Escrituras, da Lei de Moisés. E o faz também quando a interrogá-lo sobre o adultério são os seus discípulos, aos quais repete: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério”.

Mas se a verdade é esta e o adultério é “grave”, como explicar então que Jesus falou “tantas vezes com uma adúltera, com uma pagã”?, pergunta o Papa. “Bebeu de seu copo, que não era puro?”. E no final lhe disse: “Eu não te condeno. Não peques mais”? Como explicar isso?

“O caminho de Jesus – vê-se claramente – é o caminho da casuística à verdade e à misericórdia. Jesus deixa a casuística de fora. Aos que queriam colocá-lo à prova, aos que pensavam com esta lógica do ‘pode’, os qualifica – não aqui, mas em outro trecho do Evangelho – como hipócritas. Também com o quarto mandamento eles negavam de assistir os pais com a desculpa de que tinham dado uma bela oferta à Igreja. Hipócritas. A casuística é hipócrita. É um pensamento hipócrita. ‘Pode – não pode… que depois se torna mais sútil, mais diabólico: mas até que ponto posso? Mas daqui até aqui não posso. É a enganação da casuística.”

O caminho do cristão, portanto, não cede à lógica da casuística, mas responde com a verdade que o acompanha, a exemplo de Jesus, “porque Ele é a encarnação da Misericórdia do Pai, e não pode negar a si mesmo. Não pode negar a si mesmo porque é a Verdade do Pai, e não pode negar a si mesmo porque é a Misericórdia do Pai”. “Este é o caminho que Jesus nos ensina”, notou o Papa, difícil de ser aplicado diante das tentações da vida: “Quando a tentação toca o coração, este caminho de sair da casuística à verdade e à misericórdia não é fácil: é necessária a graça de Deus para que nos ajude a ir assim avante. E devemos pedi-la sempre. ‘Senhor, que eu seja justo, mas justo com misericórdia’. Não justo, coberto com a casuística. Justo na misericórdia. Como és Tu. Justo na misericórdia. Depois, uma pessoa de mentalidade casuística pode se perguntar: ‘Mas o que é mais importante em Deus? Justiça ou misericórdia?’. Este também é um pensamento doente… o que é mais importante? Não são duas: é somente uma, uma só coisa. Em Deus, justiça é misericórdia e misericórdia é justiça. Que o Senhor nos ajude a entender esta estrada, que não é fácil, mas nos fará felizes, a nós, e fará feliz muitas pessoas.”